Ensino Fundamental

Tanto no que se refere à vida cotidiana quanto à educação e ao conhecimento, fomos acostumados à ideia de que existem caminhos exteriores e anteriores a nós. Caminhos sempre foram rotas previamente definidas pela história, pela cultura, pela sociedade, e quanto mais precisas, mais seguras. Ter um mapa na mão e uma rota na cabeça já foi possível e eficaz, durante séculos.

Hoje, entretanto, mapas e rotas predeterminadas perderam o sentido e o poder. Projetos de vida, projetos educacionais, métodos científicos não podem mais ser concebidos de um modo determinista em um mundo constituído por incertezas permanentes. Neste início de século, o mundo não anda mais sobre uma rota traçada, ele não é uma locomotiva sobre trilhos. O futuro é absolutamente incerto. É, portanto, necessário pensar sempre considerando tais incertezas.

Desse modo, a única certeza que podemos permitir é a que educar para esse futuro demanda uma reforma de mentalidade. O caminho, que é o nosso método, está sendo traçado, aberto, trilhado e refeito simultaneamente por todos nós, que caminhamos e educamos.

Entretanto, nosso método parte, sim, de algumas certezas, de alguns paradigmas que nos servem de guia.

– Nenhum saber, nenhuma informação faz sentido se não puder ser situada em um contexto. Ou seja, o mais sofisticado de todos os conhecimentos, as informações mais precisas pouco significam, se estiverem isoladas em si mesmas, se não estabelecerem vínculos entre outros conhecimentos, numa rede infinita. Daí afirmamos que a concepção curricular do Ensino Fundamental é transdisciplinar, interdisciplinar. Temas e projetos de diferentes áreas se articulam, se sustentam mutuamente.

– Muito mais importante que dar conta ansiosamente daquilo que não sabemos é poder refletir sobre o que sabemos. Ou seja, é preciso acreditar que nenhum conhecimento é definitivo. É preciso refletir, continuamente, nessa caminhada-método, sobre o que achamos que já sabemos. Isso porque é possível e é preciso reaprender sempre, até o fim da vida, até o fim do caminho.

Não se trata de aprender sempre o novo, cumulativamente. A proposta nuclear é reaprender, re-conhecer. O caminho da experiência e do conhecimento não é uma rota linear, parece mais uma espiral, posto que é necessário olhar sempre para trás, buscando entender e avaliar o que fizemos e deixamos de fazer, para aprimorar nossos projetos, nossas ações.

Um método-caminho tem vocação para a reflexão dinâmica, que não admite a cristalização, que se refaz continuamente. Nessa linha de raciocínio, o erro não é visto como fracasso, mas como parte do percurso, como reflexão provisória.

– O homem não é apenas inteligência, racionalidade. É igualmente afetividade, sonho, imaginação, prazer e é também um membro de sua espécie. Ele tem um vínculo biológico que o identifica com seus semelhantes. Ele tem vínculos sociais que o situam numa comunidade. E finalmente tem vínculos com a história e sua descendência, ou seja, o homem é também um ser ético. Membro de uma espécie, membro de uma comunidade, membro de uma cultura, membro de um planeta.

A tendência individualista, tão característica dos seres humanos, consiste em pensar (quase sempre) exclusivamente em sua circunscrição familiar. A cada filho, estendemos nossos próprios projetos de felicidade. Entretanto, é preciso ir além até mesmo da máxima cristã que afirma a necessidade de pensar no próximo. É preciso pensar nos que não são próximos, nem contemporâneos, ou seja, no filho do filho do filho do nosso filho. Articular o sonho individual ao sonho não apenas coletivo, mas a um sonho ecológico, que se estende em direção a todo o planeta e ao futuro mais distante.

O individualismo afirma a liberdade, primordial e fundamental a cada um de nós, mas pode nos condenar a uma solidão sem vínculos, sem permanência. A educação precisa ter dupla direção: permitir que aflore o indivíduo, pleno em sua autonomia, entusiasmado pela vida e pelo conhecimento e ao mesmo tempo estimular a consciência permanente do respeito ao outro, seja ele semelhante ou dessemelhante.

Um outro aspecto que compete aos educadores e pais é dar lugar ao tempo, não abreviá-lo nessa ânsia que temos de eficácia e produtividade, até mesmo com nossas crianças. O psicanalista e escritor Contardo Callegaris afirmou que, até bem recentemente, os pais preservavam a infância de seus filhos como um paraíso breve, desejando que eles fossem crianças felizes. Hoje, os pais desejam que suas crianças sejam adultos bem sucedidos, bombardeando-os de pretensos estímulos, sem lhes dar tempo para deixar nascer e fluir seus próprios desejos, de acordo com sua natureza individual.

Inteligência e racionalidade; amor e imaginação; sociabilidade e ética.

Tudo no universo cósmico, na natureza, no homem, no conhecimento e nas espécies está interligado em uma teia de solidariedade. Nada é completamente autônomo. Juntos e articulados, esses três paradigmas apontam para a tese de que o gênero humano é complexo, e que a sabedoria consiste em deixar florescer harmoniosamente todas essas dimensões em direção ao sentido múltiplo da vida: pensar, criar, ser feliz e conviver.